sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Carta a Istanbul


Minha querida Istanbul,

O teu encanto apoderou-se de mim. Sinto-me, agora, divida em três: uma parte em Aveiro, uma parte no Porto e outra parte contigo. Quando cheguei senti um cheiro diferente: uma massa de ar quente envolvida em especiarias atacou-me. Fui invadida por um milhão de luzes e palavrões turcos. Foi amor à primeira vista.

Já no avião sentia os barquinhos de pesca e o Bósforo, calmo e sereno, cruzado, porventura, por correntes dos nautas que trazem a saudade, essa palavra portuguesa que o mundo turco aprendeu.

Há um certo mistério para quem não te conhece. Mas eu conhecia-te mesmo antes de te ver. Foste-me trazida pelo mais fiel contador de histórias, que te desfiou, te descomplicou, te embelezou. Tal como Pamuk, eu também te vejo em tons de cinza, como uma memória que sempre sonhei. Sinto saudade do teu embalo, dos cânticos quando rezas, do cheiro a maresia, da música nacional, do Atatürk, da Istiklal, de Taksim, da tua luz, da forma como me olhaste e me recebeste. Foi como ser olhada por dentro. Viste além da minha pretensão europeia, descobriste a minha brisa oriental, mostraste-me nas estrelas o que era possível.

E agora tudo o que tenho são as memórias e a saudade. Deixa-me ir embora. Eu volto.

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